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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Os buracos do espelho (por Arnaldo Antunes)



o buraco do espelho está fechado

agora eu tenho que ficar aqui

com um olho aberto, outro acordado

no lado de lá onde eu caí



pro lado de cá não tem acesso

mesmo que me chamem pelo nome

mesmo que admitam meu regresso

toda vez que eu vou a porta some



a janela some na parede

a palavra de água se dissolve

na palavra sede, a boca cede

antes de falar, e não se ouve



já tentei dormir a noite inteira

quatro, cinco, seis da madrugada

vou ficar ali nessa cadeira

uma orelha alerta, outra ligada



o buraco do espelho está fechado

agora eu tenho que ficar agora

fui pelo abandono abandonado

aqui dentro do lado de fora


Fonte: Arnaldo Antunes

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

abismos> exposição no museu vale




Recriar modos de olhar, convidando o espectador a adaptar-se a diferentes luminosidades enquanto acompanha obras que parecem se relacionar umas com as outras, dialogar entre si e com o espaço. Essa é a proposta da mostra Salas e Abismos, que exibe nove instalações criadas ao longo da carreira do artista plástico carioca Waltercio Caldas, no Museu Vale, em Vitória, no Espírito Santo. “Proponho um jogo de espaços, onde um trabalho reverbera no outro”, diz o autor.

Algumas obras são bastante inusitadas.É o caso da obra Ping-Pong, a representação de uma partida de pingue-pongue jogada por um cego. Já a sala Silêncio do mundo apresenta um ambiente completamente tomado pela escuridão, com paredes e objetos negros, que costumam causar reações como inquietação em quem entra no ambiente. Em Maçãs falsas Caldas usa espelhos para desafiar o espectador a distinguir as frutas reais das artificiais,um exercício que pode ser transposto para outros âmbitos: o que há de verdadeiro dentro ou fora de nós? Na Sala para Velásquez está um livro sobre a obra do pintor barroco espanhol Diego Velázquez (1599-1660), com imagens e textos produzidos fora de foco, a tela Los Velázquez, além de esboços e trabalhos acerca do que o artista denomina “o funcionamento dos espelhos”. Para Caldas, as instalações são pretextos para propor novas interpretações de objetos que fazem parte tanto do cotidiano quanto do imaginário contemporâneos. Em sua obra, faltas e excessos se alternam, apresentando abismos e conexões. “Olhar para a arte é compactuar com esse abismo; a função do artista é melhorar a qualidade do desconhecido”, declarou o artista carioca.



quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Como o vinil mudou minha vida

2009 foi um ano único em minha vida. Único porque me permiti colocar em prática vários projetos que estavam em stand by desde 2008. Único porque me permiti me permitir.

Um dos resultados mais legais foi botar em uso a coleção de LPs empoeirada do meu pai e descobrir gostos musicais novos, mais cultura para alimentar minha alma.

Escutar vinil é uma arte. Coisa que merece dedicação, senão devoção.

Quando criança ainda tive contato com aqueles grandes discos pretos e com o aparelho com o braço e a agulhinha na ponta. Meu pai até tinha me dado uma Eletrola Philips amarela... Felizmente preservada até hoje e com a qual posso me deliciar com os LPs.

Aos 10 anos fui apresentado ao Compact Disc, vulgo CD. Ganhei meu primeiro álbum nesse formato no meu aniversário de 1990: Information Society. Super engraçado... nem tinha um tocador em casa. Tive de esperar mais um mês até convencer meu pai a comprar um.

Lembro do trombolho que era o carrossel da Gradiente para 5 discos. Tudo conectado ao grande sistema de som Pioneer do meu pai; ainda com vitrola, equalizador, K7 e tudo o mais. Como aquilo ocupava espaço.

Quase 20 anos depois reencontro meus velhos discos e os discos de meu pai. Todos aguardando serem revelados, apresentados aos meus ouvidos. Alguns álbuns ainda intocados, lacrados, pedindo para serem libertados.

E eu ali. Com minha Eletrola amarela, desbravando o passado em busca do futuro.

Escutar discos de vinil é sim uma arte. Algo com seu próprio Bushido.

A música moderna está formatada ao consumo imediato. Podemos deglutir rádio digital via internet, queimar MP3s aos lotes para nossos iPhones, iPods e afins, conectá-los ao rádio do carro, ao som da sala, ao computador. E as bandas passam, as músicas voam daqui para lá e ninguém lembra quem tocou o quê.

A música deixou de ser uma trilha sonora complementar ou um estímulo do ócio e à filosofia vã do dia-a-dia para ser um objeto, uma coisa, um isso e só.

Colocar a agulha da vitrola no local certo, apreciar a equalização oca do LP, ouvir os chiadinhos ao fundo é exercer a paciência - algo tão em desuso atualmente.

Virar o lado quando disco acabar, trocar o disco, esperar, recomeçar. Entender que para haver continuidade é preciso compromisso, dedicação.

Guardar os discos com cuidado. Saber que a música está ali. E que caso ela se perca, ela realmente se foi e não vai voltar.

As coisas têm fim.




quarta-feira, 4 de março de 2009

digressões polissemânticas, progressões pluriafetivas: a vida vivida(!)

brainstorm (machado de assis) por Fábio Nogueira.


mude seus pensamento e mude sua vida
palavras ao vento que rodeiam e permeiam
- quem somos, o que fazemos
crescemos se assim queremos

pensemos no bem de todos
pois quando todos ganham, também ganha cada um de nós

mesmo que não consiga falar, por vezes
por ser a mim as palavras algo como invisível, indivisível, inaudível
insensível não sou, nunca serei

seria mais viável se dentro do inseparável
pudesse negar o improvável
e tudo seria remediável com uma palavra

hoje sei que uma pode funcionar
uma pode ser pouco
mas me diga algumas palavras
e melodias sinceras afinarão meu coração

e de mim irradiarei para ti
todas as coisas lindas que tenho guardado
multiplicaremos os nossos espaços
e a cidade será mais linda, a vida mais leve,
o ar repleto de boas palavras

multipiquemos o que há de bom
minimizemos os excessos
sejamos pois apenas aquilo que devemos ser: simples

simplesmente ser
ser mente brotando cores bravias e sentimentos vibrantes
retumbe em nós o tambor que alardeia a felicidade na morada

seja a vida vida
seja
bem vivida

bem-vinda, ó vida